Guarulhos, maio de 2039

José Pacheco

Publicado em 16/10/2019

No tempo em que éreis jovens, o vosso avô cumpria a sua diáspora e era frequentador assíduo de aeroportos, como aquele de onde vos envia esta carta.

Guarulhos foi palco de peculiares episódios. Certamente, ser-vos-á difícil de acreditar, mas, naquele tempo, imperava o medo de atentados. Para voar, o vosso avô era revistado, obrigado a tirar o cinto e a despir o calçado. Descalço e segurando as calças, passava por uma máquina, rezando para que o alarme não soasse e fosse sujeito a desconfiados olhares e apalpações. A via sacra continuava na área de embarque, onde, raramente, os voos partiam no horário previsto de partir.

Certa vez, foi o Virgílio que se atrasou e perdeu o voo. Encontrei-o, esbaforido, inconsolável, quando tentava encontrar um voo alternativo:

O taxista não teve culpa. Hoje, voltaram as aulas e era o horário de entrada na escola. O trânsito estava infernal! Engarrafamentos…

E por que é que todas as escolas começam à mesma hora? – repliquei.

O Virgílio não tugiu, nem mugiu, mas lançou-me um olhar assassino. E a conversa ficou por aí…

Já lhe havia dirigido essa pergunta, inúmeras vezes. E muitas outras, que aguardavam resposta:

Por que havia férias escolares, intervalos, trimestre, ano letivo? Por que razão uma aula durava 50 minutos? Por que eram duzentos os dias letivos, se nós aprendíamos nos 365 dias de cada ano? Por que se passava de trimestre para semestre, ingenuamente acreditando que isso seria gestão flexível do currículo?

Por mais inverosímil que possa parecer, crede que assim era, antigamente. Felizmente, o tempo dos horários-padrão, dos atrasos e do medo pertence ao passado. E do passado recupero outro episódio.

O Egídio, adepto confesso da imposição de cadências uniformizadoras, tomou consciência da diversidade rítmica, quando menos esperava, como se verá.

No intervalo de um congresso, careceu de satisfazer uma elementar necessidade fisiológica. Dirigiu-se ao quarto de banho. A célula fotoelétrica funcionou e fez-se luz. Foi até ao fundo do corredor, encostou-se ao mictório e deu início à aliviação. Para não sair a meio da palestra, a contenção urinária havia sido longa e as águas a verter eram mais que muitas.

Subitamente, a luz foi-se. Sem deter a micção, o Egídio ergueu um braço e acenou, voltou a acenar e… nada! O quarto de banho manteve-se imerso na mais profunda escuridão. Ao trocar de mãos, para acenar com o outro braço, escapou-se-lhe a coisa, e os urinários fluidos verteram-se, calças abaixo, numa torrente morna, que não tardou a sentir fria e desconfortável, até aos sapatos. O Egídio sacudiu-se. Depois, hirto e sofrido, empreendeu o regresso, percorrendo o longo corredor às apalpadelas, praguejando de cada vez que introduzia as mãos tateantes em humidades não-identificadas.

Acabou o périplo encaixado entre dois lavatórios e embatendo frontalmente contra uma traiçoeira parede, que as trevas ocultavam. Continuou a acenar com a sinistra, contornando o obstáculo, com a mão direita colada à dorida fronte. Ao contornar a fatídica parede, o automático, que estava ajustado para o tempo-padrão de uma urinação normal, disparou novamente. E fez-se luz!

Curioso e inteligente como qualquer professor, o Egídio apurou que os toques de campainha tinham sido introduzidos nas escolas do século XIX. Já ninguém se recordava dos objetivos visados na longínqua introdução desse dispositivo. Mas, decorrido mais de um século, a sineta, manualmente acionada do tempo dos avós dos professores, continuava a soar a mando de um computador.

Recebei um beijo do avô José.

Por que os pássaros voam?

Marcus De Mario

08/07/2019

Um menino se aproximou e perguntou:

– Por que os pássaros voam?

Olhei para o menino, em seguida estendi meu olhar para o céu e, voltando minha atenção para aquela criança com sua curiosidade, indaguei:

– E qual é a sua resposta para essa pergunta?

Ele esfregou os olhinhos miúdos, pensou um pouco, e respondeu convicto:

– Os pássaros voam porque eles não têm medo de cair.

Satisfeito consigo, saiu apressado sem me dar tempo a qualquer palavra.

Então fiquei ali, pensando e olhando para o céu. Será mesmo que os pássaros voam porque não têm medo de cair, ou será por outro motivo?

E por que o homem anda? E também posso perguntar: por que os peixes nadam? E poderia fazer mil perguntas aparentemente desconexas, tudo porque preciso descobrir o que leva um pássaro a voar e sempre voar.

E o que tudo isso tem a ver com educação?

Somos pobres criaturas humanas chumbados ao solo pelas nossas preocupações imediatas, esquecidos que a cabeça está acima do pescoço para que possamos olhar para o céu. E quem consegue olhar para o céu é como o filósofo que, olhando os pássaros no céu, se pergunta sobre a vida e tenta descobrir os segredos existenciais que não estão escritos em palavras, mas que devem ser sentidos e apreendidos pela alma.

Todo educador precisa ser um filósofo, um perguntador, um curioso e um escutador de emoções, não apenas dos outros, mas principalmente as emoções próprias, deixando aflorar sentimentos e procurando entendê-los. Em outras palavras, todo educador precisa ser um pesquisador da vida, começando por se conhecer, para depois conhecer a razão que leva os pássaros a voarem.

O autoconhecimento é a essência da educação.

Com o autoconhecimento é possível fazer a autoeducação.

Com a autoeducação é possível dar ao educando aquilo que somos, pois em não sendo assim apenas poderemos dar aquilo que temos, mas esse não é o verdadeiro ato educativo.

Mas a pergunta persiste: por que os pássaros voam?

Tenho por mim, contrariando a sabedoria popular, os poetas e o menino que me levou a estas reflexões, que os pássaros voam porque não têm medo de subir.

Será que, enquanto educadores, sabemos voar para não cair na tentação do tradicional, do burocrático, do sempre foi assim e assim sempre será?

São Paulo, agosto de 2039

José Pacheco

Publicado em 05/09/2019

Netos queridos,

Encontrei o seguinte texto na revista O Ocidente:

“O Governo pugna pelo bom carácter civil, moral, do ensino. O aluno cheio de maldade não obedece à palavra e tem a certeza da impunidade. O professor quer restabelecer a ordem e não consegue, porque a onda de insubordinação cresce. Os mestres quase nada ensinam à falta de disciplina que não há. As crianças que são bem comportadas e desejam aprender pouco aprendem. Que interessante é uma escola bem disciplinada! Mas onde a há que deixe de ser perturbada por algum de entre muitos que, saindo do seu tugúrio [leia-se: “periferia”, “favela”] vem incorporar-se na comunidade limpa e asseada e eivá-la dos vermes da destruição moral, corrompendo pelo mau exemplo os corações bem formados, as consciências limpas.

Esta notícia foi publicada em maio de… 1887.

Também li o depoimento de um anônimo, escrito no início da década de 1950: Tínhamos que estar com respeito e atenção. A professora mantinha a disciplina com uma palmatória. E, quando a professora já estava cansada, mandava um dos alunos bons bater nos colegas que soubessem menos. E, se batessem devagar, ela batia neles e batia a nossa cabeça contra o quadro. O anônimo autor deste depoimento dá a entender que, por via dos métodos em voga, andavam “tolhidos de medo, era medo por todos os lados, tinham medo de ir para a escola e medo de ir para casa”.

Dado que o professor não ensina aquilo que diz, mas transmite aquilo que é e porque a aprendizagem é antropofágica – não aprendemos o que ouvimos, mas aprendemos o outro – muitos alunos se transformaram em adultos medrosos e egoístas. Dado que a aprendizagem acontece por imitação e pelo exemplo, políticos e outros bonsais humanos, que ignoravam a existência de uma educação humanizadora, impuseram a escola da violência simbólica, a escola “militarizada”, a mesma de que foram vítimas.

Há vinte anos, não nos surpreendíamos quando, no fim de uma sessão da Câmara, o chão do plenário ficava coberto de lixo, víamos o chão do auditório juncado de copos plásticos e outros detritos, ali deixados por ilustres deputados.

A escola hegemônica e “militarizada”, que tínhamos, ia semeando ignorâncias e outras violências. Ela fora concebida no início da Primeira Revolução Industrial, correspondendo a necessidades sociais da Prússia Militar: treinar jovens para a guerra, jovens obedientes a um regime disciplinar inquestionável, respeitadores de uma hierarquia imposta. A escola nasceu “militarizada” e os professores do século XIX não sabiam que a autoridade não rimava com autoritarismo. Que a escola não deveria preparar para a cidadania, mas que se aprende cidadania no exercício da cidadania, no exercício de uma liberdade responsável, na autodisciplina, na verdadeira disciplina, que não resulta de imposições e submissões, mas pressupõe o exercício do diálogo, a desocultação de perversos modos de relação.

Um século após a publicação do texto na revista O Ocidente, no ano de 1988, uma “Proposta Global de Reforma” dizia-nos que o adestramento não define a educação e que a educação é incompatível com a organização autoritária da vida. Mas, há cerca de vinte anos, num tempo de pós-verdade, assistimos a um “regresso ao passado”, assistimos a novas “militarizações”.

O pesadelo cessou, felizmente. Hoje, libertos de “militarizações”, os tempos são outros… Disso vos falarei em próxima carta.

Com amor,

O vosso avô José.

Sonhos impossíveis

Marcus De Mario

04/06/2019

Após evento sobre educação do qual tive o prazer de participar apresentando proposta pedagógica inovadora para a escola, uma professora veio conversar e expor seu drama enquanto professora universitária e coordenadora de curso de graduação, pois, segundo ela, toda vez que conversa com seus colegas professores sobre humanização do ensino, mudanças na metodologia, formação em valores humanos, ouve que essas coisas são sonhos, são irrealizáveis e que é difícil conversar com ela, pois vive no mundo dos sonhos e não no mundo real. Para seus colegas professores universitários, falar em escola inovadora, em ensino mais humanizado, em formação do caráter dos educandos é uma utopia, um sonho impossível.

E acrescentou: Meus colegas professores desconhecem a realidade do ensino básico brasileiro, vivem apenas o ensino universitário. Sim, triste realidade. E como ser professor, fazer carreira no magistério, está muito mal visto em nosso país, tudo se agrava. Uma colega professora diz que um aluno perguntou se, além de dar aula, ela tinha uma profissão, ou seja, as crianças já não conseguem perceber que ser professor é uma profissão.

O que vai acontecer com a educação brasileira no futuro? Se não acreditamos em caminhos pedagógicos diferentes e teimamos em repetir velhas fórmulas, que, é bom frisar, não têm dado certo, mais alguns anos e não teremos a quantidade e a qualidade de professores que o país irá necessitar.

Segundo dados levantados pelo Todos pela Educação, 2,46 milhões de crianças e jovens de 4 a 17 anos estão fora da escola. Entre esses estão mais de 1,7 milhões de jovens entre 15 e 17 anos. A pesquisa aponta que no geral , os estudantes matriculados na escola – pública ou particular – apresentam desempenho inferior às metas estabelcidas pelas avaliações nacionais. Ainda a pesquisa mostra que 12,5% professores sofrem pelo menos um tipo de agressão verbal ou intimidação a cada semana de aula. De cada 100 alunos, cerca de 28 estão com até dois anos a mais do que o esperado para a série que está matriculado.

Está na hora de revermos o que pensamos que seja educação, e o que pensamos seja o processo ensino-aprendizagem, e também qual o papel da escola na sociedade e, ainda, qual a melhor interação deve acontecer entre a família e a escola.

Enquanto ficarmos deitados no descanso de uma zona de conforto ilusória, os problemas irão se acumular e se agravar, ainda mais quando a maior parte dos pedagogos e professores brasileiros não acredita em mudanças, transformações necessárias e urgentes. Pergunto: quem está fora da realidade?

De minha parte continuarei a sonhar, até que esse sonho seja realidade.

The winner is …

José Pacheco

17/07/2019

Com pompa e circunstância, à boa maneira da entrega dos óscares de Hollywood, o anfitrião acabou com o suspense: O professor vencedor é…

Provavelmente, o proclamado “professor do ano” será um ótimo professor de sala de aula. Não duvido da sua competência e presumo que seja profundo conhecedor dos conteúdos da sua disciplina. Não duvido da amorosidade, que os “professores nota 10” colocam no seu quotidiano de sala de aula. Mas, o exercício da profissão em sala de aula é manifestação visível de uma cultura profissional eivada de individualismo. A expressão “Professor Nota 10” é reflexo de uma cultura profissional feita de solidão de sala de aula e de autossuficiência. Rankings são instrumentos de classificação, de competição, de comparação entre pessoas. Como se fosse possível compará-las…!

Quem estiver na disposição de assistir à reportagem escutará o premiado dizer que. estudar é uma coisa para todos, quando deveria dizer que a educação é um direito de todos. Que os alunos têm ciclos de atenção durante uma aula, que lhes permitem estar realmente empenhados, refletindo total ignorância no que tange aos princípios gerais da aprendizagem e sem referir que esses ciclos de atenção são escassos, ou que, numa aula de 50 minutos, se perdem muitas horas de aprendizagem.

Na cerimônia de premiação, houve tempo para contar anedotas como a que se segue: Quando nós conseguimos respeitar o ritmo dos alunos e permitir que eles próprios controlem o ritmo da aula… Gostaria que me explicasse como o professor consegue alcançar tal prodígio no contexto de uma sala de aula. Porque escutei de outro professor este lamento: Tenho lá um aluno que faz muitas perguntas e que me quebra o ritmo da aula! O leitor sabe o que é “o ritmo da aula”? Nem eu!

Na reportagem da premiação, sem noção do ridículo, o locutor também quis dar um ar da sua graça: O Professor pede aos alunos para escreverem um resumo do que é dito na aula, a cada 15 minutos. E até premeia os melhores. O professor “premeia”, à boa maneira pavloviana, ou skyneriana, como era recomendado que os professores fizessem… décadas atrás.

Por seu turno, o Júri – pessoa digna de admiração, mas para o qual as ciências da educação ainda são ciências ocultas – ironizou: As escolas têm modelos educativos extraordinários. O que atrapalha são os alunos… E mostra que terá lido algo de autor escolanovista: O professor vencedor do prémio coloca o seu discurso nos alunos. São os alunos que são assim, são os alunos que são assado…

A segunda frase, enquanto lusa e vulgar expressão, poderia passar por metafórica. Porém, o meu mau feitio força-me a ser denotativo e a recomendar que, nessa frase, haja concordância entre sujeito e predicado: os alunos são assados. Literalmente! Nas salas de aula, os alunos assam. O seu senso crítico é sequestrado, a sua capacidade criativa arde em forno lento, o direito à educação é reduzido a cinzas.

Quatro décadas atrás, sozinho em sala de aula, também eu me considerava o “melhor professor”, “nota 10”. Quando dei sumiço às aulas, passei a não competir, mas a cooperar com os meus colegas, passei a trabalhar em equipe. Não é raro ver premiar com o Nobel, não um cientista isolado, mas uma equipe. E, quando um cientista discursa na cerimônia, fá-lo, quase sempre, agradecendo à sua equipe, lembrando que é pela partilha do engenho humano que a inovação acontece.

Diálogo difícil

Marcus De Mario

28/05/2019

Tenho tido oportunidade de desenvolver rodas de conversa em escolas, dialogando com professores, pais e alunos. Percebo que as rodas de conversa mais difíceis são aquelas que reúnem professores. Eles têm dificuldade em dialogar, em saber ouvir, respeitar a opinião do outro e saber falar com sentido de construir, de agregar, de cooperar. Trabalham como se fossem ilhas distantes de um arquipélago e não conseguem formar sentido de equipe, daí a dificuldade de dialogar.

A roda de conversa é um processo dialógico em que o coordenador se coloca como provocador e mediador, e quando inicio falo que não estou ali para ensinar, e sim que estamos em círculo para conversar, refletir, propor caminhos, construir em conjunto o entendimento sobre o tema previamente proposto. Alunos, pais e responsáveis não têm problema quanto a falar e ouvir, se abrir e pensar, mas os professores …

É compreensível. Estão formatados no ensinar, no dar aula, no competir para garantir o emprego. Formatados pelos cursos superiores de formação, formatados pelas exigências burocráticas das secretarias de educação, formatados pela escola que resiste a mudanças e transformações necessárias diante dos desafios ddo século.

Uma escola entrou em contato para agendar a roda de conversa e a responsável, coordenadora pedagógica, foi logo falando em palestra. Não é palestra, é diálogo aberto, interativo. A proposta é nada ensinar, e sim provocar reflexão, extrair de dentro de cada um sobre o tema, numa visão ampla que envolve a vida e não apenas a escola. Mas como conseguir bons resultados se os participantes, e entendamos aqui principalmente os professores, não se abrem e ficam apenas na defensiva de uma visão educacional e de uma prática pedagógica já carcomidas pelo tempo?

O professor necessita ter mente aberta, lembrando que vivendo no século 21, em pleno terceiro milênio, não pode ficar vinculado a pensamentos, processos e práticas que são de um ou mesmo dois séculos atrás. Os tempos são outros, as realidades são outras, e temos que entender que todos somos pessoas, seres humanos em interação: professores, alunos, pais e responsáveis, agentes escolares, representantes comunitários. Todos somos dotados de inteligência e sentimento. Ou não?

A busca pelo diálogo será uma constante. Para construir caminhos. Para compartilhar saberes. Para unir experiências. Para desbravar possibilidades. Para fazer uma nova escola.

Deixo o convite para você, professor: vamos dialogar?

Educação com base em valores

José Pacheco

04/06/2019

Entre os dias 24 e 26 de maio, um educador português teve oportunidade de participar na Global Education Conference, que decorreu no sul da Índia. Coube-lhe a difícil missão de representar o Brasil e a América do Sul. Missão difícil, por ser estrangeiro e a educação do Brasil não ser para amadores…

Projetos de uma Educação com Base em Valores – era esse o tema central do congresso – foram apresentados por países como: Estados Unidos, Israel, Laos, Austrália, Índia, Malásia, Costa Rica, Tailândia, Reino Unido… e Brasil. O projeto apresentado pelo representante de Cingapura foi reflexo do excelente desempenho dessa ilha-Estado do Sudeste asiático no PISA. Cingapura ocupa o primeiro lugar nas três disciplinas avaliadas pelo PISA: Ciências, Matemática e Leitura. E outros projetos de idêntica valia foram dados a conhecer.

O propósito de uma educação com base em valores é formar o caráter, isto é, a unidade entre pensamento, palavra e ação. Foi o que Freire repetiu à exaustão, apelando a que a intenção e o gesto do educador fossem coerentes. Inspirados na obra desse mestre, em meados da década de 1970, numa pequena escola do norte de Portugal, professores (freirianos, graças a Deus!) definiram uma matriz axiológica e decidiram instituir práticas coerentes entre pensamento, palavra e ação.

Esses educadores desenvolveram uma práxis fundada no paradigma da aprendizagem. Num tempo em que o “protagonismo juvenil” ainda não fazia parte do discurso pedagógico, concretizaram, na prática, valores como a autonomia moral e intelectual do aluno. Esse projeto foi referência e inspiração de outros projetos.

Trinta anos decorridos, o iniciador desse projeto viajou pelo mundo, conheceu centenas de projetos, visitou milhares de escolas. Até que o Brasil lhe mostrou o quanto estava equivocado. Aprendeu que aprendizagem, para além de ser significativa, não está centrada no professor, nem no aluno, porque ninguém aprende sozinho. No Brasil, aprendeu que a aprendizagem está centrada na relação.

Em regiões de extrema pobreza e violência, identificou novos valores e encontrou caminhos de transição para o paradigma da comunicação. Aprendeu que escolas não são edifícios, que as escolas são pessoas e que as pessoas são os seus valores. Quando esses valores são transformados em princípios de ação, dão origem a projetos. E, porque os projetos humanos são coletivos, o estabelecimento de vínculos amorosos viabiliza e consolida o trabalho em equipe.

Hoje, esse educador colabora com escolas, que desenvolvem uma educação com base numa nova matriz axiológica. A viagem à Índia permitiu-lhe perceber que, apesar de ocupar os últimos lugares do ranking mundial de educação em ciências, leitura e matemática, o Brasil é o berço de uma nova educação.

Os projetos apresentados no congresso tinham por referência valores caraterísticos do modelo educacional da primeira revolução industrial: individualismo, competição, egoismo, exacerbada auto-estima. O projeto representante do Brasil refletia cooperação, empatia, reconhecimento do outro, solidariedade.

E o representante do Brasil se interroga: por que vão os brasileiros visitar projetos dos Estados Unidos e do Japão? Por que copiam projetos da Finlândia? Talvez porque não saibam que há muitas finlândias dentro do Brasil. Finlândias humanizadas…

Escola Humanizada

Marcus De Mario

Publicado em 18/05/2019

Quando assistimos um filme de época, ou seja, principalmente os que retratam a vida social de antes da metade do século vinte, muitas vezes nos escandalizamos com o tratamento que era dado às crianças e jovens, tanto na família como na escola. Consideradas meras miniaturas dos homens e mulheres, as crianças eram espancadas, tinham de suportar metodologias educacionais torturantes, eram subservientes ao pai, e as escolas não eram construídas para elas, mais se assemelhando a verdadeiras prisões.

O tempo passou, novas ideias surgiram, a sociedade mudou, criou-se a pedagogia e, dizem, não há mais termos de comparação da atualidade com o passado. Bem, não é tanto assim. Em alguns países europeus, às voltas com a violência dentro da escola, estão sendo adotadas medidas coercitivas contra os alunos, como proibição de celulares, detectores de metais, revistas nas mochilas, policiamento ostensivo, vigilância com câmeras e, até mesmo, cogita-se da volta da palmatória ou outro instrumento equivalente. Nos Estados Unidos qualquer diretor de escola pode chamar a polícia para prender o aluno que desacatar um professor ou desobedecer as normas escolares.

Aqui no Brasil as coisas não estão muito diferentes. Violência na escola e no seu entorno já nem dão mais audiência de tão comum o fato. Escolas que verdadeiramente massacram seus alunos com estudos preparatórios para os exames de toda ordem, destacando-se o enem e o vestibular, fazem parte do cotidiano do sistema de ensino, tanto público como particular, talvez com mais intensidade neste último.

Atividade que provoque barulho em sala de aula é, para muitos diretores e coordenadores, sinônimo de perda de autoridade por parte do professor.

E temos também outras questões muito graves: autoritarismo da direção escolar, melindres e desunião entre os professores, cobrança radical sobre os pais, rotulagem sumária do aluno não enquadrado no sistema, tudo isso colaborando para termos uma escola que na prática coloca-se distante do discurso pedagógico.

É por tudo isso que sentimos a necessidade da humanização da escola. O diretor, o professor, o funcionário, o aluno, o pai, a mãe, enfim, todos os que estão envolvidos, direta ou indiretamente, no processo escolar, são humanos, são gente. Possuem sentimentos e saber. Ninguém é objeto, ou número, ou máquina.

Precisamos tornar mais humanas as relações entre as pessoas e também as relações pedagógicas. Um pouco de afetividade não faz mal a ninguém, pelo contrário, sensibiliza o coração e faz com que entendamos que os problemas enfrentados pela escola não têm solução na ação policial ou em atos de segurança institucional.

Ambiente prazeroso onde todos podem desenvolver seu potencial é do que necessita a escola, e não estamos falando apenas de ambiente adaptado para os alunos, mas de ambiente prazeroso para todos, pois os que fazem da escola seu ambiente de trabalho também necessitam ter prazer em ali estar. Escola humanizada não é sonho.

Escola humanizada é necessidade. Entretanto, somente mudando as pessoas e os modelos de gestão das mesmas poderemos mudar a instituição social chamada escola.

Amor, ordem e progresso

Amor, ordem e progresso

José Pacheco

Publicado em 18/05/2019

Amor por princípio, a Ordem por base, o Progresso por finalidade – eis o lema adotado por Benjamim Constant, o “Fundador da República Brasileira”. Benjamim foi Ministro da Instrução Pública, autor de uma profunda reforma curricular, propôs a descentralização da gestão e uma “formação adequada aos novos tempos”.

Apesar de ter sido militar e condecorado como combatente na Guerra do Paraguai, Benjamim era um pacifista, assumia o princípio de que se deve “Viver para Outrem”. E, ao participar no movimento pela Proclamação da República e na elaboração da Constituição de 1891, pugnava por que a palavra Amor estivesse presente em todas as citações do lema positivista.

Tal como o Benjamim de há mais de cem anos, sabemos que as pessoas deverão amorosamente colaborar com pessoas, sem com elas competir. Sabemos que escolas são pessoas e que as pessoas são os seus valores. Nos últimos quarenta anos, milhares de vezes orientei a construção de “árvores dos valores”. Cada participante nessa dinâmica de grupo indicou o valor essencial das suas vidas. E o “tronco” da “árvore”, o valor mais vezes referido sempre foi o… Amor.

Numa tese sobre a Escola da Ponte, encontrei a descrição de um episódio, que transcrevo. Nos idos de 1980, o “Tribunal” julgava alunos, cujos nomes surgissem em grande quantidade no “Acho Ruim”. Na proto-história da humanidade, em que os homens ainda precisam de tribunais, prisões e guerras, as crianças imitaram-nos. Até ao dia em que uma menina de seis anos de idade, advogada de defesa de um colega, assim falou numa sessão do “tribunal”:

Vós não ouvis dizer que devemos amar-nos uns aos outros? Eu escutei o advogado de ataque dizer que o Marco cospe nos colegas, que lhes atira pedras, que o Marco é mau. Mas o Marco não precisa que digam que é mau. Ele precisa de quem o ajude a ser bom. Algum de nós já ajudou o Marco a ser bom?

E continuou: Estou nesta escola há um ano e só ouço falar de castigos. Proponho que se acabe com o tribunal e se crie comissões de ajuda.

Assim ficou decidido na assembleia seguinte. E, sempre que o Marco tendia para fazer besteira, logo um círculo humano o rodeava, dizendo: Somos a comissão de ajuda. Estamos aqui para te ajudar. Nós sabemos que tu és bom. Nós somos teus amigos! – E o “mandamento novo” se cumpriu. Nunca mais foi preciso impor regras, reprimir, punir.

A aprendizagem acontece, se tecemos vínculos afetivos – se eu existo é porque o outro existe. O ser humano não é apenas um ser de contato – é um ser em relação – e a educação é um ato de amor. Mas continuamos insensíveis aos apelos de Freire e do poetinha: ponha um pouco de amor na sua vida. E, nos arquipélagos de solidões em que as nossas escolas se transformaram, inauguram o desamor, não os desamados, mas os que não amam, porque apenas se amam.

Cadê a palavra Amor na bandeira brasileira? Ordem sem amor é violência, porque o adestramento não define a educação e uma educação amorosa é incompatível com a organização autoritária da vida. Progresso sem amor é deterioração ambiental, desumanização.

Na sociedade doente em que vivemos, prevalece a cultura do ódio. Imaginai o que seria este país se a palavra Amor não fosse ostracizada. Se o mais belo hino do mundo nos diz que um raio vívido de Amor e de esperança à terra desce, porque terá sido amputado o lema positivista inscrito na bandeira do Brasil?