Textos Pedagógicos

The winner is…

José Pacheco

17/07/2019

Com pompa e circunstância, à boa maneira da entrega dos óscares de Hollywood, o anfitrião acabou com o suspense: O professor vencedor é…

Provavelmente, o proclamado “professor do ano” será um ótimo professor de sala de aula. Não duvido da sua competência e presumo que seja profundo conhecedor dos conteúdos da sua disciplina. Não duvido da amorosidade, que os “professores nota 10” colocam no seu quotidiano de sala de aula. Mas, o exercício da profissão em sala de aula é manifestação visível de uma cultura profissional eivada de individualismo. A expressão “Professor Nota 10” é reflexo de uma cultura profissional feita de solidão de sala de aula e de autossuficiência. Rankings são instrumentos de classificação, de competição, de comparação entre pessoas. Como se fosse possível compará-las…!

Quem estiver na disposição de assistir à reportagem escutará o premiado dizer que. estudar é uma coisa para todos, quando deveria dizer que a educação é um direito de todos. Que os alunos têm ciclos de atenção durante uma aula, que lhes permitem estar realmente empenhados, refletindo total ignorância no que tange aos princípios gerais da aprendizagem e sem referir que esses ciclos de atenção são escassos, ou que, numa aula de 50 minutos, se perdem muitas horas de aprendizagem.

Na cerimônia de premiação, houve tempo para contar anedotas como a que se segue: Quando nós conseguimos respeitar o ritmo dos alunos e permitir que eles próprios controlem o ritmo da aula… Gostaria que me explicasse como o professor consegue alcançar tal prodígio no contexto de uma sala de aula. Porque escutei de outro professor este lamento: Tenho lá um aluno que faz muitas perguntas e que me quebra o ritmo da aula! O leitor sabe o que é “o ritmo da aula”? Nem eu!

Na reportagem da premiação, sem noção do ridículo, o locutor também quis dar um ar da sua graça: O Professor pede aos alunos para escreverem um resumo do que é dito na aula, a cada 15 minutos. E até premeia os melhores. O professor “premeia”, à boa maneira pavloviana, ou skyneriana, como era recomendado que os professores fizessem… décadas atrás.

Por seu turno, o Júri – pessoa digna de admiração, mas para o qual as ciências da educação ainda são ciências ocultas – ironizou: As escolas têm modelos educativos extraordinários. O que atrapalha são os alunos… E mostra que terá lido algo de autor escolanovista: O professor vencedor do prémio coloca o seu discurso nos alunos. São os alunos que são assim, são os alunos que são assado…

A segunda frase, enquanto lusa e vulgar expressão, poderia passar por metafórica. Porém, o meu mau feitio força-me a ser denotativo e a recomendar que, nessa frase, haja concordância entre sujeito e predicado: os alunos são assados. Literalmente! Nas salas de aula, os alunos assam. O seu senso crítico é sequestrado, a sua capacidade criativa arde em forno lento, o direito à educação é reduzido a cinzas.

Quatro décadas atrás, sozinho em sala de aula, também eu me considerava o “melhor professor”, “nota 10”. Quando dei sumiço às aulas, passei a não competir, mas a cooperar com os meus colegas, passei a trabalhar em equipe. Não é raro ver premiar com o Nobel, não um cientista isolado, mas uma equipe. E, quando um cientista discursa na cerimônia, fá-lo, quase sempre, agradecendo à sua equipe, lembrando que é pela partilha do engenho humano que a inovação acontece.